Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
O Portugal dos Mesquinhos

É, meus amigos, estamos em Portugal.

Um país de brandos costumes, de gente acolhedora, simpática, enfim, tantos adjectivos de sinal positivo quanto o sol quentinho que nos foi destinado e que tantos turistas atrai.

Somos também um povo solidário. Quando alguma desgraça acontece estamos geralmente na linha da frente com pessoal equipado com muita boa vontade e com algum material, muitas vezes escasso para as necessidades sentidas.

São episódios demonstrativos o terramoto da Turquia, o tsunami do sudeste asiático e, agora, o terramoto no Haiti.

As nossas ONG partiram de imediato, com o material disponível na ocasião.

O facto de que o avião estava um bocadinho avariado (era só um bocadinho) não é relevante. Afinal, aconteceu o mesmo com outro aparelho semelhante da Força Aérea dos States. A única diferença é que eles tinham um C-17 para substituir de imediato e nós só tínhamos um pequeno Cessna estacionado no aeródromo de Tires, com 4 lugares mas sem capacidade para levar bagagem.

Quanto à reconhecida, diria mesmo imprescindível, falta de organização das equipas portuguesas, nada a dizer. Somos assim e pronto! É, aliás, graças à nossa espantosa capacidade de desorganização que somos mundialmente conhecidos por uma característica única para a qual não existe palavra equivalente em qualquer outra língua: o DESENRRASCANÇO.

E agora que já abordámos os temas recursos humanos e materiais, proponho concentrarmo-nos nos recursos financeiros. Somos um país pequenino, com poucos recursos naturais, portanto, também o que nos é pedido não é igual ao que outras nações podem dar.

Como tal, o povo uniu-se uma vez mais e, numa onda de solidariedade lá recorreram aos seus parcos recursos e contribuiram, conforme puderam, para a causa humanitária de apoio às vítimas do Haitì. E aqui entra, na minha opinião, o que é obsceno, miserabilista e mais outros adjectivos menos próprios que agora não me lembro.

Como todos sabemos, a participação neste esforço é voluntária e cada um contribui conforme pode. E, se nos facilitarem os meios para fazer os donativos, melhor (nós, portugueses, gostamos de nos acomodar, mas só um bocadinho e só às vezes). Daí que tenha surgido o "tele-donativo". Mais não é que uma chamada de valor acrescentado, onde o dinheiro acumulado será entregue a uma ONG - neste caso a AMI, instituição de enorme carácter e abnegação, constituída por profissionais anualmente esquecidos por volta do 10 de Junho - se alguém merece uma condecoração são, sem dúvida, eles.

Quem também merece medalhas, por exemplo A GRANDE ORDEM DA VERGONHA NACIONAL e A COMENDA DA PRESTAÇÃO MISERÁVEL DE SERVIÇOS são o Ministério das Finanças e a PT Comunicações respectivamente.

Mas porquê, perguntará o cidadão mais distraído ou menos atento.

A explicação começa na descrição da oferta: faça o seu donativo no valor de 60 cêntimos para a causa.

Até aqui, tudo bem. Como diz o povo, grão a grão enche a galinha o papo.

Mas, feita a boa acção, vem a factura: o IVA e a cobrança do serviço: o que se iniciou como sendo 60 cêntimos acaba em 1 euro e 10 cêntimos, ou seja, quase o dobro!

E o que antes era um acto de solidariedade tornou-se a tal vergonha de um aproveitamento ignóbil dos sentimentos dos portugueses.

Sou cobrado pela PT e taxado pelas Finanças para colaborar com apenas 60 cêntimos.

Revolto-me quando se organizam espectáculos de solidariedade e o apresentador diz, com ar triunfante, que já amealharam 60 000 euros para a AMI.

Agora, é apenas uma questão de fazer contas: se a chamada fica no total em 1 euro e 10 para doar 60 cêntimos, então quer dizer que, para serem doados 60 000 euros, foram na realidade cobrados 110 000 euros dos quais 12 000 para pagamento de IVA e 38 000 euros para pagamento de serviços à PT.

Que esta prática se aplique a programas radiofónicos ou televisivos, não comento. Cada cidadão tem o direito de escolha, pode não se importar de dispor de mais algum para os abutres, só para votar no concorrente do seu agrado, ou para consultar um horóscopo, ou para o que seja. Aqui, a situação é um pouco diferente: há uma crise humanitária, um dos países mais pobres do mundo assolado por um cataclismo e os cidadãos, movidos pelo espírito solidário, contribuem sem sequer pestanejar.

Eis senão quando surgem, caídos de pára-quedas, os famigerados impostos e serviços, aproveitando-se ignobilmente do sofrimento de terceiros.

Confesso: tenho vergonha de ser cidadão de um país onde o exemplo vindo de cima é o roubo descarado de quem age de boa-fé.

Afinal, esta é a bitola pela qual nos regemos.

Eu, cá por mim, faço transferências para as contas de solidariedade onde ainda me dão um papelucho para descontar em sede de IRS.

Ora toma lá p'rás espertezas saloias!



publicado por amexilhoeira às 01:01
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